Jonas Savimbi: O dedo envenenado russo-cubano

A nenhum observador atento passava despercebido o desejo de supremacia que cada um dos movimentos de libertação procurava obter sobre os restantes. Daí a uma corrida ao armamento foi um abrir e fechar de olhos. Por estar enfeudado à União Soviética, o MPLA partia com certas vantagens. Devido à sua política em relação à África, a União Soviética não hesitaria em fornecer armamento, e, se necessário, instrutores e mercenários, para que o movimento de Neto pudesse rapidamente guindar-se a uma posição de supremacia sobre a FNLA e a UNITA. E foi o que realmente aconteceu.

Os primeiros aviões, vindos do Uganda, aterraram no Luso em Maio de 1975, e desembarcaram armamento destinado ao MPLA, perante a passividade do exército português, a quem cabia, na altura, a responsabilidade da manutenção da ordem. Toda a costa angolana, mas sobretudo a compreendida entre a Barra do Cuanza e o Dande, servia para o desembarque de material, isso com o conhecimento e até com a cooperação das forças armadas portuguesas. Como digo atrás, cada movimento procurava afirmar-se militarmente. O MPLA era, no entanto, o mais interessado nessa corrida, pois que o jogo democrático acordado no Alvor nunca poderia facilitar os seus intentos.

A UNITA sabia, a priori, que seria a vencedora de qualquer tipo de eleições. Apesar disso, também tentou rearmar-se, também procurou meios para reforçar o seu potencial militar. Mas, por nunca se ter enfeudado a qualquer potência, não encontrou aliados e teve dificuldades. Para contrabalançar a ajuda militar soviética ao MPLA, dirigiu-se sucessivamente aos americanos, franceses, ingleses, romenos, jugoslavos e a alguns países africanos. Porém, os seus apelos não tiveram eco.

É verdade que, em dado momento, alguns países africanos amigos se propuseram armar quinze mil homens da UNITA, para que esta, assim fortalecida, pudesse servir de equilíbrio entre rivalidades antigas e ameaçadoras do MPLA e da FNLA. Foi nessa altura, que o então major Melo Antunes, numa viagem feita a Dar-es-Salam e a Lusaka, surgiu a convencer a Tanzânia e a Zâmbia de que ele, Melo Antunes, iria proceder à entrega de quinze mil armas à UNITA. Aqueles países africanos concordaram com essa proposta maquiavélica, que, no fundo, apenas visava atrasar o esforço da UNITA de armar melhor as suas forças.

Naturalmente que a UNITA nunca recebeu as quinze mil armas prometidas por Melo Antunes. Recebeu, sim, umas pobres mil e quinhentas G3 no Huambo — entrega que suscitou imediatamente problemas com oficiais portugueses, que cumpriam em Angola instruções do Partido de Álvaro Cunhal. Com o equipamento moderno de que MPLA se estava a dotar e com a chegada de instrutores e técnicos cubanos para as suas forças, não era difícil profetizar que dias amargos e sangrentos aguardavam a independência de Angola!

Em Janeiro de 1975, quando da formação do Governo de Transição, já havia cubanos em Luanda. O seu número aumentou em Abril, por ocasião da minha visita àquela cidade. Nessa mesma altura, Massangano já era uma base de treino do MPLA, com instrutores cubanos. Foi ainda nesse mês, também, que um avião português foi alvejado nos morros de Massangano, o que levou a Força Aérea Portuguesa a encarar a hipótese de uma acção punitiva contra aquela base.

Embora desconhecendo-se o seu número exacto, é indesmentível que os cubanos começaram a chegar a Angola em Janeiro de 1975. Mesmo dando de barato que em Massangano, em Luanda ou numa outra base, os seus efectivos não iam além de uma centena, é lógico que Cuba, mal a ameaça de guerra civil se desenhou mais nitidamente no horizonte angolano, se sentiu na obrigação militante de reforçar esses efectivos. Até porque o governo de Havana não devia estar nada interessado em que os seus soldados ou técnicos fossem dizimados ou capturados.

Qualquer argumento que tente justificar a presença de soldados cubanos em Angola como forma de contrapor à intervenção sul-africana, é, pois, redondamente falso, pois não resiste à análise dos acontecimentos. Só o armamento maciço recebido da Rússia e o treino acelerado ministrado pelos cubanos às suas tropas permitiram ao MPLA recuperar o atraso militar de que sofria e combater com algum êxito a FNLA e a UNITA. Não seria certamente um MPLA saído da guerra colonial, profundamente dividido, com os seus elementos desgarrados, que poderia de um dia para outro defrontar os outros dois movimentos e conseguir algumas vitórias.

Em confronto com o poderoso equipamento militar concedido pela União Soviética ao MPLA, a UNITA apenas recebeu, dos vários países com quem contactou, quatrocentas armas. Por uma questão de rigor histórico, esclareço que esses países foram a Zâmbia, a Tanzânia, a Roménia e o Congo-Brazzaville. Cada um deles ofereceu-nos uma centena de armas. Mais nenhum outro pais nos ajudou. E se a UNITA tivesse disponível o armamento que possui hoje na guerra contra russos e cubanos, nunca por certo teria perdido as áreas que controlava. E talvez tivesse conseguido encontrar, na altura, uma solução política.*

*Jonas Savimbi, Angola, a resistência em busca de uma nova nação, Agencia Portuguesa de Revistas, 1979

6 Respuestas a “Jonas Savimbi: O dedo envenenado russo-cubano

  1. El mayor error de Savimbi: Formar una alianza militar con el régimen del apartheid.
    Eso le costó que casi todos los paises de la “línea del frente” (Africa Subsahariana, el Africa negra) le viraran la espalda.
    Es cierto que el MPLA era minoritario. Es cierto que la reclamación del pueblo Ovimbundo, de ser independiente, era justa.
    Ese es otro tema.

  2. Pero Manchiviri,si no se alia con Sudafrica entonces con quien,Sudafrica estaba cercana a Angola en esos tiempos(controlaba Namibia)y le daba armas,comida y vituallas,Sudafrica era un aliado que Savimbi no podia dejar a un lado.Que fueran racistas eso es otra cosa, la realidad militar era que Savimbi los necesitaba como contrapeso al apoyo ruso-cubano que recibia el MPLA.

  3. José,

    Desde el momento en que las potencias occidentales y los centros de poder económico mundiales eran contrarios al sistema de apartheid de Africa del Sur, ese régimen se encontraba destinado al fracaso.
    Aliarse a ese sistema era como aliarse a un muerto y condenarse al repudio de toda el Africa negra.
    Hoy en día, especular con quién se debía haber aliado Savimbi resulta muy fácil. En aquella época era sumamente difícil.

    Considero que el reclamo del pueblo Ovimbundo, de ser libre e independiente, era no solamente justo. Era y es un derecho que tiene todo pueblo. Solo, que las Naciones Unidas (en el tema de la descolonización) habían aprobado una resolución en la cual se recogía la obligatoriedad de reconocer las fronteras que habían establecido las potencias coloniales.

    Para desgracia del pueblo Ovimbundo (que no tenía fronteras geográficas con ningún otro país vecino), le tocó en suerte, verse obligado (por una ley absurda que divide pueblos y etnias)a aceptar, lo que ellos consideraban inaceptable.

    Savimbi no supo, o no consiguió lidear con esta situación.

  4. Lêm-se as mais diversas análises sobre a guerra civil em Angola, deparamo-nos c/ as maiores aberrações demagógicas, mas todos se esquecem da génese da questão, aqui colocada pelo anterior comentário, cujo autor não é português nem angolano:
    A Autonomia do povo Ovimbundu.
    Planear uma independência no pressuposto de que se deviam manter as fronteiras outrora criadas p/ benefício de potências colonizadoras, foi sem dúvida uma má herança que os europeus deixaram e que se tornou na origem genuína deste conflito fraticida, que posterior e oportunamente foi aproveitado e transvestido em parte da guerra entre o bem do ocidente e o mal do bloco de leste.
    Infelizmente e tardiamente o futuro trará à tona esta questão de fundo, por ora estigmatizada no resultado de erros crassos dum mau líder da questão bailunda.
    Sim, Savimbi foi um mau líder, porque colocou a sua ambição e a sua tese experimental de social negritude maoista, acima dos interesses do povo que dizia representar.
    Foi um autocrata tirano, que a exemplo doutros obstinados como Estaline, Hitler, Mussolini e Franco, utilizou o seu magnetismo natural e o seu talento na oratória, para seduzir multidões com um discurso populista, que aglutinava milhões de seguidores fanatizados por promessas da divisão equitativa das riquezas de Angola e/ou dos colonos.
    Essa estratégia, quase se eternizou no interior de Angola, pois aplicava-se sob acção implacável intransigência, terror e brutalidade.
    O respeito que um líder deve exigir aos seguidores, transformou-se na imposição dum credo obsessivo, sustentadas na submissão ao líder, cuja principal ferramenta dissuasora era a perseguição a quem ousasse questionar os seus pensamentos, então transformados em lei.
    Tal como os tiranos Europeus supra citados, depois de morto, o mito Savimbi atrai perigosos seguidores, fanáticos e sedentos dum argumento que lhes permita banalizar a violência para se afirmarem.
    Era sensato que as questões tribais fossem debatidas atempadamente, em clima de civismo e paz, e antes que um evento pontual despolete a explosão pela qual os extremistas tanto anseiam, a exemplo do que aconteceu na década de 90 no Ruanda e na Jugoslávia, ou mais recentemente no Quénia e na Nigéria.
    Ainda hoje, na Europa há diferendos sobre regionalismo e fronteiras que atropelam interesses de povos, porquanto a questão bailunda, duma forma abrangente e não fracturante, deve fazer parte da agenda política de todos os agentes que se interessem por uma Angola una, mas c/ condições que respeitem igualdade nos direitos e obrigações cívicas/sociais, mas também as diferenças linguísticas, culturais e religiosas.
    Edifiquemos uma Angola c/ alicerces que não cedam à primeira oscilação, garantindo assim uma paz duradoura para um povo que já tanto sofreu.

  5. Nao se pode branquear a Historia. Quer dizer que agora querem celebrar o Savimbi e o regime do apartheid como os verdadeiros libertadores da Africa do colonialismo? O colonialismo era russo ou português? O comunismo, por mais mau que tivesse sido, foi o unico sistema mundial que mais apoiou os lutas de libertaçao na Africa Austral e também no Congo de Lumumba. Ja esqueceram quem matou Lumumba? Quem era aliado do colonialismo português? Nao eram os boers sul-africanos e os EUA? Entao, como é que vamos meter tudo no mesmo saco e misturar com o rotulo de Guerra-Fria? Esqueceram-se que o conflito entre o MPLA e a UNITA nao começou em 1975, em Luanda, mas em 1968, no Leste, quando os colonos armaram e fardaram o Savimbi e as FALA para travarem a guerrilha do MPLA?

  6. Savimbe , de llegar al poder , habría sido , un tirano , ya en su historia , contaba con un saldo , negativo en cuanto a su forma de tratar a los camponeses , se contaban y digo contaban pues no las vi que creo una imagen de inmortalidad , a costa de poblaciones sin ningún tipo de educación .
    Yo al menos si vi de lo que eran capaces las agrupaciones élites de la UNITA , y lo pude ver en directo.

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